Dona Arlete e seus fuxicos

Seu comportamento foi surpreendente. Não que os anteriores não tenham sido, mas este em particular, representou muito na minha vida.

Para salvá-la, tive que autorizar a colocação da bolsa de colostomia mesmo sabendo que aquilo mudaria a vida dela completamente, ainda mais naquele tempo, em que este assunto era pouco comentado pelo medo da rejeição.

A surpresa veio da reação dela diante desta adversidade. Foi aconselhada a procurar ajuda psicológica, mas foi no trabalho manual que ela driblou as dificuldades que esta patologia trazia para os pacientes daquela época.

A escolha do fuxico trouxe um ar de alegria para a casa e para ela. Era tecido por todos os lados. Tecido na caixa e fora da caixa.

Tecido cortado, tecido riscado, tecido comprado e ainda ganhado. Tecidos listrados, tecidos bordados. Tecidos amassados e até rasgados.

A casa também se encheu de carretéis de linhas, lápis, canetas e tesouras. E o que dizer das temidas agulhas, perdidas nos sofás? Estas mesmas agulhas que davam formas aos fuxicos, espetavam também as nádegas e mãos dos mais afoitos que sentavam ao seu lado,  para fazer-lhe companhia ou dar-lhe um beijo.  Muitos ais eu ouvi.

Quase aprenderam a fazer fuxico, a Lindinha, cadela que acompanhou esta artesã por todo o tempo, e os diversos gatos que se aventuravam pelas caixas espalhadas pela sala.

A nossa diversão ficava por conta da “falta de vista” dela. Era chegar um neto que ela já sorria e pedia:  “Aqui, risca aqui que a vó não enxerga mais”. Uns riscavam, outros cortavam e assim, os quadrados ou as tiras iam ganhando forma.

Quando vejo minha colcha, lembro dos seus lindos olhos verdes me agradecendo ao invés de cobrar. Aqueles 18 meses sem poder sair de casa e fazendo seus fuxicos, foram, segundo ela, um tempo precioso da vida. Uma vida de diversão e de aprendizado em cada arremate e finalização.

Fica aqui uma reflexão. Como nos comportamos diante das adversidades?

 

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